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:: Artesanato ::


Timor é muito conhecido pelo seu artesanato e, embora a cestaria e os panos sejam os mais conhecidos, a sua arte está longe de se esgotar nelas. Os timorenses são um povo de artistas, seres multifacetados que revelam aptidões nos mais diferentes domínios.
As imagens (visuais ou simbólicas) constituem um sistema de comunicação comum, código através do qual todos se entendem.

Segundo a opinião de Ruy Cinatti, os timorenses são artistas artífices, uma vez que a sua arte é quase sempre de aplicação, ou seja, não é meramente decorativa, mas tem uma função pratica. O artesanato ou a função artística não se distinguem dos outros afazeres colectivos, sejam estes o trabalho nas hortas, ou a construção de uma casa.

Entre as criações de artesanato timorense, destacam-se então os seus panos ou panaria e cestaria, a olaria, a ourivesaria, assim como o baixo-relevo em madeira, e alguma escultura.


PANARIA


Os panos fabricados em Timor, ou tais, a partir de fio de algodão produzido localmente, são verdadeiramente originais seja nas cores, seja nos motivos. Apesar de haver diferenças quanto aos padrões, todos os distritos os produzem. Actividade inteiramente feminina, excepto no que toca ao fabrico dos teares (em madeira e bambu), é pontuada por praticas rituais e proibições individuais.

O algodão antes de ser transformado em fio sofre várias operações: descaroçamento, cardagem, fiação-torção, confecção de novelos. Após isto, os fios podem ser destinados
a constituir as barras com desenhos dos panos, ou ser destinados a constituir barras lisas ou a trama dos panos.

Os panos criados são de uso masculino ou feminino, sendo os de uso masculino normalmente mais espectaculares nos motivos e cores. Os panos de fabrico tradicional denominam-se tais feto, quando são para uso das mulheres, sendo de forma cilíndrica
e tais mane, os destinados ao uso masculino, compridos como um lençol.

A tecelagem não visava, primeiramente, a criação de panos para serem usados, pois estes, eram, considerados moeda e circulavam na sociedade em troca de outros bens.
Há panos que se usam apenas em situações especiais que implicam não só o indivíduo, mas também a sua comunidade, a sua linhagem.
Entre os mais procurados, distinguem-se os panos de Oecussi.

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CESTARIA


A cestaria é uma actividade realizada em todo o território, tendo por fim a produção de objectos utilitários ou simplesmente decorativos. Criam-se cestos de todos os tamanhos
e formas.

Servem para arrumar utensílios domésticos, objectos pessoais, transportar coisas para
os mercados, para colocar alimentos, cigarros, dinheiro. Fazem-se também esteiras para cobrir o chão, as Biti, ou então, painéis que, funcionando como biombos, fazem a divisão da casa, revestem paredes ou servem simplesmente de porta. Com esta técnica também se adornam garrafas, latas, constroem-se casas em miniatura, espanta-espíritos, flores, enfim, tudo o que possa embelezar a casa. Actividade levada a cabo em momentos de lazer, noites de luar, ou dias mais húmidos (que permitem o fácil manuseamento das folhas). Esta é uma actividade fundamentalmente feminina.

A cestaria tem as seguintes fases: preparação das fibras, normalmente obtidas de folha de palmeira, talhe em fitas com faca e gabarito e entrelaçar das fitas.
Após o acabamento da obra são acrescentadas fitas coloridas, criando padrões que podemos encontrar também na tecelagem, e que primam pela sua graciosidade.
Os aspectos decorativos prevalecem sobre o rigor das formas.

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Motivos

Se interrogados sobre a razão de determinados motivos usados no seu artesanato,
a resposta normalmente é a de que já assim faziam os avós. Os motivos usados são sobretudo figurativos ou geométricos.

Ao analisar os motivos figurativos, concluiremos que estes geralmente se referem
a elementos que estão profundamente ligados à história timorense, às suas crenças animistas, ou que estão ligados à história de uma família ou clã, como por exemplo,
o gato, que é o emblema do clã de Tchailoro por ter salvo, em determinada ocasião,
o avô dos avós.

A casa e a árvore são muito utilizadas como motivos decorativos. Esta última tem para
o timorense uma grande importância, pois é a ela que vai buscar alimentos, os materiais com que constrói as casas e confecciona o seu vestuário e os utensílios domésticos.
É o símbolo de uma ordem universal ao mesmo tempo que é, no plano religioso,
a ligação entre o mundo inferior, médio e superior- é o eixo do mundo tripartido.
Cada aldeia possui uma árvore sagrada. Junto da árvore ou à sua sombra reúnem-se
as grandes assembleias para discutir o destino das comunidades. Como motivo figurativo, raramente surge isolado, associando-se a outros elementos, quer como complemento, quer como símbolo integrador de todos esses elementos.

O barco também surge como elemento de ornamentação. Os timorenses, apesar de viverem rodeados por mar, não são marinheiros e só ocasionalmente se tornam pescadores – só em Ataúro se vive da pesca. No entanto, há uma tradição de navegação ligada aos seus antepassados, tradição esta que se encontra nos mitos. Dizem-se vindos de além-mar (de ilhas mais ou menos distantes, como as Celébes, ou do Continente asiático), mas uma vez finda a odisseia em que se empenharam, voltaram as costas ao mar e às actividades com ele relacionadas. As representações, de forma estilizada ou realista dão, no entanto, testemunho desta tradição marítima.

O corpo humano, encontrado frequentemente nas criações artísticas timorenses várias vezes tem um significado simbólico que visa a protecção contra espíritos malignos, ou a recordação dos antepassados, que por sua vez também têm um papel protector.
Atribui-se muitas vezes a este símbolo poderes mágicos: os motivos possuem, frequentemente, a energia mágica do ser representado, o que reforça o seu papel protector.

São também representados animais. Entre estes, encontramos o veado, o búfalo, associado ao crocodilo que o trouxe de além-mar, o cavalo, sendo que alguns panos que o representam, usados nas trocas matrimoniais, valiam, em tempos, o mesmo que o próprio cavalo. Aparecem também o cão, a serpente, que tem um sentido religioso muito profundo, o galo, peixes e outros animais aquáticos. Finalmente, e sendo este, talvez, o animal mais utilizado na temática mitológica, o crocodilo é muito representado, uma vez que os timorenses o consideram ligado à sua própria existência.

Quanto aos motivos geométricos, têm um sentido mais preciso: a estrela é representação da estrela da manhã. Triângulos dispostos ao longo de adições sucessivas de espirais duplas, mostram o caminho das almas, ou seja, o caminho feito pelos antepassados desde a sua morte até alcançar o lugar de repouso definitivo. A linguagem visual transforma-se, então, em linguagem de signos e símbolos. A perfeição das figuras pouco interesse tem para estes artífices: tanto vale um simples esboço, como um desenho acabado! O mais importante para ele é ter definido um sistema de comunicação.


OLARIA

Quanto à olaria, a técnica varia consoante a natureza das peças e a área da sua proveniência, no entanto, apresentam em muitos casos a particularidade de serem modeladas a partir da boca. Só após a secagem, a massa de argila e areia é estendida pela acção de um batente (instrumento utilizado pelos oleiros) aplicado sobre a face externa da peça e um contra-batente na sua face interna. É uma actividade exclusivamente feminina, em todas as suas fases.
Fabricam-se panelas, cântaros, pratos, potes. Alguns objectos têm decorações em relevo, outros são pintados.


ESCULTURA

A escultura, à excepção de algumas estatuetas de bronze e madeira, vestígios de uma obra perdida no passado e profundamente ligada ao culto dos antepassados, está agora descurada pelos timorenses. No entanto, lentamente ganha nova expressão.

Encontram-se estátuas de madeira normalmente representando figuras humanas, por vezes aliadas a animais. Em Ataúro, cada casa tem as suas estátuas em madeira, representando um casal. São os Itara. São também esculpidas figuras em cornos de búfalo, sendo feitos imensos objectos funcionais ou apenas de carácter lúdico.

Itara
de Ataúro

Tratam-se de pequenas esculturas em madeira, que variam muito, mas nunca ultrapassam os 12 cm de altura e 5 cm de largura. Umas têm a figura de um homem vestido de Kgôhi (pano masculino, tecido de algodão em teares domésticos), outras, a de uma mulher, trajada de sìhi (pano feminino), sendo agrupadas em cachos, ou seja em pares, e penduradas numa das colunas do fundo da casa. Representam os antepassados mais proeminentes da família. São normalmente esculpidas em nara (pau-rosa) ou lero (mogno), madeiras de boa qualidade. As estátuas que representam o homem, velam pela felicidade dos lares. Além dos Itara, são esculpidas, também em madeira, figuras que representam algumas divindades, como Báku-Mau e Lêbu-Hmôru, divindades masculina e feminina da fertilidade, a quem é pedido chuva, a fertilidade da terra, fecundidade dos animais e a abundância da pesca.


OURIVESIARIA


O trabalho com metal, quer vise a criação de ferramentas e a remodelação de artigos de ferro (recuperação de peças e artigos danificados), quer o fabrico de artigos de prata fundida ou ouro, é exclusivamente masculino.

A ourivesaria produzida em Atsabe e no Suai é especialmente conhecida pela sua beleza, sendo também quem mais a produz.

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